Máscaras do Mito

Por Katia Canton*

 

A cada segundo, duas bonecas Barbie são vendidas em algum lugar do planeta. A estatística, revelada numa pesquisa na internet, nos dá a idéia da potência desse mito, que ao longo dos últimos quase cinquenta anos, tornou-se o paradigma do ideal de beleza feminino.

Barbie foi criada no final dos anos 30, pelo casal Ruth e Eliot Handler, cuja filha, Bárbara, gostava de vestir e trocar suas bonecas.

O casal Handler, dono da empresa de brinquedos Mattel, resolveu lançá-la na Feira Anual de Brinquedos

de Nova York em 1959, vendendo-a ao preço de 3 dólares cada. A tiragem inicial de 340.000 Barbies

esgotou-se rapidamente e novos modelos se seguiram no tempo, aumentando exponencialmente a popularidade da boneca. 

Ironia do fato histórico: a boneca surgiu em plenos anos 1960, marcados pela reivindicação das liberdades pessoais e pelo feminismo, que entre outras coisas, contestava a passividade da mulher-objeto. Pois, enquanto feministas norte-americanas queimavam sutiãs em praça pública, a Barbie passava a ocupar locais privilegiados nas prateleiras das lojas de brinquedos, com sua figura loira de olhos azuis, sexy, magérrima e ao mesmo tempo curvilínea, vestida com modelos exuberantes, preferencialmente na cor rosa.

 

A grande particularidade, que gerou o sucesso imediato da Barbie, é o fato de ela não ser uma boneca-menina, mas sim, uma boneca-mulher. Seus criadores perceberam que, no contexto da sociedade moderna, as meninas querem crescer e se tornar adultas e desejadas o quanto antes.

 

Podemos pensar aqui na erotização da infância, que progressivamente assola as novas gerações. Apresentadoras de programas televisivos destinados a crianças são loiras, vestem roupas sexies, etc. Ao mesmo tempo, podemos refletir também sobre uma infantilização da vida adulta.

 

Pois se o modelo de beleza feminina é uma boneca, cujas proporções são impossíveis de serem reproduzidas em mulheres reais, estamos todas projetando no espelho a imagem idealizada de um ser plástico, vendido juntamente com outros valores acoplados em seus acessórios e modelos: a roupa de grife que ela usa, a Ferrari que ela conduz, o sapato de salto altíssimo, o penteado blonde alisado e brilhante, o iPod da moda.

 

Patrícia Kaufmann escolheu a Barbie, seduzida pela potência e complexidade desse símbolo, para ser a moldura de sua criação artística.

 

Quando, há quatro anos, começou a utilizar a boneca como tema, suas imagens eram constituídas de pinturas, com máscaras que reproduziam os contornos da boneca nas posições frontal ou lateral.

Esses contornos eram transportados às telas como marcas registradas, padronagens que cobriam as superfícies pintadas nos tons vermelhos e rosas, sublinhando a impessoalidade do símbolo. Tornaram-se máscaras míticas, à medida que resistiam ao tempo, conceito embutido nas várias camadas de tinta que cobriam a tela, revelando e escondendo novas combinações de tons, como antigos palimpsestos.

 

Cabe aqui destacar o fato de que a artista não utiliza tintas prontas. Cada cor sua é única, fabricada in loco, na ação das misturas feitas com pigmentos e base acrílica. Há momentos em que ela se inspira e perde a fórmula, apagando as possibilidades de repetir tonalidades. Eis uma forma de pintar que se contrapõe à massificação do símbolo Barbie.

 

No decorrer do tempo, enquanto o conceito ganhava força na obra, surgia a necessidade de articular outras noções de forma e de identidade na boneca. Patrícia viu-se atraída pela idéia de sair da pintura e conduzir sua figura emblemática rumo à tridimensionalidade.

 

A carreira de Patrícia Kaufmann tinha até então um perfil voltado à criação bidimensional. Dedicou-se à pintura, tendo como professores, entre outros, a carioca Beatriz Milhazes, na Escola do Parque Lage

do Rio de Janeiro. Em São Paulo, na Faap, dedicou-se também à gravura, tendo Cláudio Mubarac como

um professor referencial.

 

Articular o objeto em si seria um grande desafio a partir de então.

 

Sem economizar na exuberância das imagens, que muitas vezes lembram cenas de filmes do espanhol

Pedro Almodóvar, o trabalho da artista ganha então um certo humor, ao mesmo tempo que se torna mais fabulístico e crítico.

 

Uma espécie de estante com seis divisórias parece reproduzir as vitrines do chamado Red District, em Amsterdã, na Holanda, onde prostitutas se expõe como objetos, exibindo-se e convidando potenciais clientes, através da transparência das janelas. Cada pequeno ambiente criado por Patrícia exibe uma ou mais bonecas vestindo lingeries feitas de lantejoulas e vidrilhos, saltos finos, adornos exagerados. Tudo isso cercado de um ambiente cuidadosamente desenhado com mini-objetos, que vão de móveis a garrafinhas de bebida.

 

É muito singular a combinação entre força crítica e lúdica que se articula nessa miniaturização do erotismo. De fato, uma das características da obra de Patrícia Kaufmann está justamente na delicadeza bem humorada com que ela põe o dedo na ferida de uma das questões mais indigestas no que diz respeito à educação e ao posicionamento sexual da mulher na sociedade ainda hoje.

                 

Go, go! é outra escultura-objeto que desperta um misto de atração e negação. Um Barbie de peças

intímas feitas com vidrilho vermelho e salto segura num cabo vertical e fica girando num pedestal,

banhada com luz halógena.

 

Aqui, a objetificação do feminino se encontra com a cultura popular de massa, mostrando uma cena que em muito me fez recordar da pole dance, dança erótica executada em torno de um cabo vertical por uma personagem da novela das oito da Globo e que pretendeu tornar-se um modismo em academias.

 

Playboy é a mais bem humorada e ao mesmo tempo incômoda das obras. A lendária revista vem cuidadosamente guardada numa bela caixa, como se fosse um tesouro. A artista refez a própria edição, colocando a Barbie como a grande  protagonista da história.

 

Frases do tipo “Queremos Barbie” ou “Sim, a moça chegou lá” viram manchetes de páginas coloridas, mostrando a boneca em poses sensuais, relacionando-se com o centro político brasileiro e o cartão postal da arquitetura modernista: Brasília. Em meio aos edifícios projetados por Niemeyer, a boneca emana um simulacro de poder. Trata-se de um poder inócuo e infantilizado tendo a Esplanada como pano de fundo.

 

Na contra capa da revista, a Barbie Proxac, escancara o uso já corriqueiro das drogas anti-depressivas—o nome do produto inventado aqui substitui o j pelo x--que compõem o cenário de uma vida contemporânea, cada vez mais necessitada de aparatos e artifícios para se sustentar.

 

Já Sentido, uma caixa com seis bonecos, expõe o avesso da feminilidade forçada da Barbie. Bonecos

Max Steal, aqueles contrapontos masculinos super viris, musculosos e com roupas de exército, se

equiparam a uma cabeça Barbie, que se transpõe ao corpo masculino. Todos se revelam perigosos e

eficientes esteriótipos sociais.

 

Junto às pinturas e aos objetos, Patrícia Kaufmann mostra uma série de desenhos feitos em papéis artesanais com padronagens diversas. Escolhidos sempre a partir de uma combinação de tons, que vai de rosas a vermelhos, os papéis se tornam panos de fundo para silhuetas negras da Barbie.

 

A artista conta que se inspirou aqui na obra contundente da artista negra norte-americana Kara Walker, cujo trabalho muitas vezes articula silhuetas, como em teatros de bonecos. A Barbie é claramente um boneco, uma articulação da fantasia masculina que as mulheres também compraram.

*Katia Canton é PhD em Artes Interdisciplinares pela Universidade de Nova York e livre-docente em Teoria

e Crítica de Arte pela ECA USP. É docente e curadora do Museu de Arte Contemporânea da USP e autora

de vários livros.